Para quem não pôde assistir à defesa da minha tese de mestrado, quinta-feira, na Universidade do Minho, deixo em Mais... alguns excertos.
A primeira conclusão clara que tiro deste estudo é que os ciberjornais portugueses de informação geral de âmbito nacional aproveitam pouco as potencialidades da Internet.
Essa é, não só, a opinião que me foi transmitida por todos os entrevistados, quer directores de ciberjornais quer investigadores, mas também o resultado da aplicação da tabela que criei para a medição do aproveitamento das potencialidades da Internet.
Na aplicação simples da tabela, constatei que o aproveitamento médio das potencialidades da Internet é de apenas 23,3%, considerando todos os tipos de acesso (livre, com registo e pago), valor que baixa para 21,5% quando considerado apenas o acesso livre (grátis e sem registo).
Alargando a análise às potencialidades associadas, o aproveitamento médio baixa para 18%, o que significa que, na generalidade, os ciberjornais estudados não conseguem tirar partido de mais do que uma potencialidade quando disponibilizam os dispositivos e serviços mais versáteis (com dois ou mais tipos de potencialidades).
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É, pois, de extrema importância acompanhar a evolução deste sector, aplicando novamente a tabela que construí para esta investigação, ainda que introduzindo eventuais adaptações que a evolução tecnológica recomendar.
Seria interessante não só monitorizar a evolução dos ciberjornais portugueses de informação geral de âmbito nacional, como aplicar a tabela também aos ciberjornais temáticos, regionais e locais e, porque não, aos outros três tipos de “jornalismos online” da classificação de Mark Deuze , nomeadamente aos agregadores de notícias, aos blogs informativos e de comentário, aos sites de partilha e discussão, às experiências de digging e tagging, e aos projectos dos chamados jornalismo cívico e jornalismo de cidadãos.
A tabela criada pode, e deve, ser aplicada também a ciberjornais de outros países, com óbvias e inegáveis vantagens de comparação da evolução do ciberjornalismo em diferentes pontos do globo.
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A instantaneidade é a única potencialidade com um aproveitamento superior a 50% (51,5%), o que demonstra que, na generalidade, os ciberjornais portugueses já se desprenderam das “amarras” das classificações periódicas tradicionais da imprensa, rádio e televisão, difundindo material jornalístico a qualquer momento, como sempre fizeram as agências noticiosas.
A memória (37,5%) e a multimedialidade (26,5%) são as outras potencialidades que ultrapassam a média, o que, neste último caso, contraria algumas ideias feitas de alegada prevalência de sites jornalísticos monomedium. No ponto específico relativo à multimedialidade analiso esta questão em maior detalhe, destacando, nomeadamente, a ainda persistente presença de conteúdos multimédia desgarrados, sem qualquer articulação entre si.
Com apenas 6,8% de aproveitamento, a ubiquidade revelou-se a potencialidade menos valorizada pelos ciberjornais portugueses, que também não mostraram grande criatividade na utilização de potencialidades não previstas nas sete áreas principais.
Verdadeiramente desastroso foi o muito baixo nível de hipertextualidade (10,7%) encontrado, o que indicia um estádio ainda muito embrionário de desenvolvimento de linguagens e técnicas de articulação de conteúdos, até porque estamos perante uma das mais “baratas” potencialidades ciberjornalísticas da Internet, para a qual não são necessários grandes investimentos que não os respeitantes à formação ou contratação de jornalistas capazes de construir estruturas hipertextuais adequadas ao conteúdo que se pretende difundir.
A interactividade (17,5%) e a personalização (19,7%) também ficaram abaixo dos 20%, o que confirma a grande distância a que os ciberjornais “mainstream” ainda mantêm os seus visitantes e utilizadores, persistindo em produtos massificados e não abertos à escolha e participação individual. Estes níveis subiriam, com certeza, se o universo deste estudo tivesse sido alargado aos outros “jornalismos online” de que fala Mark Deuze (2003: 205). Algo a verificar num estudo posterior.
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Um dos resultados eventualmente mais surpreendentes foi a constatação de que são os ciberjornais com origem em media audiovisuais (rádio e televisão) que, globalmente, melhor aproveitam as potencialidades da Internet.
Ao esperado domínio no uso do multimédia, as edições online das rádios e televisões juntam a “vitória” na instantaneidade, superando os títulos dos meios que, à partida, teriam mais apetência para explorar esta potencialidade – Internet e agência.
Nos últimos lugares da lista agrupada por media de origem ficaram todos os representantes da imprensa – diários, semanários e revista –, o que demonstra, na generalidade, uma menor adaptação ao novo meio por parte dos títulos do meio jornalístico mais tradicional.
É necessário notar, contudo, a grande discrepância que existe entre títulos que têm tido apostas interessantes na Internet, como o Público, o Expresso e o Correio da Manhã, e jornais cuja presença no novo meio é meramente circunstancial ou pouco mais do que isso, como o Metro, o Destak, o Diário de Notícias e o 24 Horas.
É curioso verificar também que jornais diários considerados “de referência”, como o Público e o Diário de Notícias, são concorrentes nas suas edições em papel, mas não nas edições online. Enquanto o Público está no topo da lista global, o Diário de Notícias só tem o Metro atrás.
Interessante.
Fiquei curioso quanto à tabela uma vez que os termos usados são bastante abrangentes. Por exemplo, o que se entende por "uso do hipertexto"?
A tabela, ou outra semelhante, foi aplicada a OCS estrangeiros? Quais os níveis que se verificam em outros países?
Publicado por: João S. a fevereiro 17, 2007 07:15 PMDesde já devo dizer que tive pena de não puder comparecer na defesa da tese mestrado do professor, mas não consegui ficar indiferente.
Depois do que foi dito nas aulas tinha consciência de que os ciberjornais portugueses não eram muito adeptos das potencialidades da Internet. No entanto, nunca imaginei que as percentagens fossem tão baixas.
Vai se lá compreender porque é que potencialidades tão importantes como a hipertextualidade e a interactividade são quase esquecidas. Esta escassez está, infelizmente, a contribuir para o desaparecimento progressivo do número de ciberleitores o que é lamentável.
Os excertos que publiquei são apenas um aperitivo.
Logo que tenha oportunidade, conto publicar online toda a tese, incluindo a fundamentação teórica, a metodologia, a tabela (grelha de observação) e respectivos critérios de aplicação, e a análise detalhada dos resultados obtidos.